Buteco no deserto
Como seria bom abrir um buteco no deserto. Daqueles que se ve em filme, com uma pequena mesa de sinuca, um forrozinho sem vergonha, cerveja e cachaça da pior qualidade e umas putas pra enfeitar o local.
Olho de um lado, visual desértico...olho do outro e vejo o mesmo. Poderia brincar do jogo dos 7 erros com o visual da janela esquerda e da janela direita do meu carro. Talvez acharia umas 5 diferenças no máximo.
São mais de 40 minutos de viagem até a civilização, no banco do carona, ouvindo alguma música estrangeira que não me agrada muito e pensando profundamente no buteco... Butequinho querido que tem em toda esquina no Rio de Janeiro, fedido, cheio de bêbados, cheio de putas, cheio de trabalhadores suados, estudantes universitários, torcedores enraivecidos, torcedores a comemorar, Fla x Flu na televisão em altíssimo volume, todos em altíssimo volume, o cheiro do cigarro vagabundo, e o chão ensebado de gordura do frango assado, da linguiça calabresa, das milhões de gotas de cachaça que vão pro santo, dos sapatos, ténis, saltos altos, havaianas que ali passam diariamente pra tomar uma birita, bater um papo, matar aula, comprar um maço de cigarro, assistir o bom e velho futebol ou simplesmente gastar tempo...
E dos meus lados a paisagem, linda, não há como negar, mas sem emoção, sem drama, sem áudio e quase monocromática.
Vou abrir um buteco no deserto! Porque por onde viajei dentro do Brasil, seja onde for, no mato mais mato do mato, sempre tinha um buteco sujo. Nunca gostei muito, aliás há poucos butecos que posso dizer que me afeiçoei... Não sou lá muito cachaceira, mas como disse antes muitas vezes só se vai ao buteco pra gastar tempo, meu passatempo preferido na época da faculdade.
Bom tempo aquele em que eu matava uma aula chata pra ficar sentada no buteco do DCE bebendo uma Itaipava gelada na companhia de amigas queridas, confabulando revoluções academicas (as vezes mundiais, dependendo da quantidade de álcool ingerido) ou paquerando os poucos homens existentes no Campus da Praia Vermelha.
E as viagens pro interior do Rio, aquela boa paradinha no buteco, comer um pão de queijo com guaraná natural, usar o banheiro, fazer hora até o ônibus chegar... jogar conversa fora, planejar a viagem, contar o dinheiro, convidar desconhecidos a nos conhecerem...
Onde estou posso procurar e procurar muito que não vou achar nada nem parecido com um buteco, qualquer lugar aqui pra se bater papo, tomar uma birita ou gastar hora, vai lhe custar no mínimo 50 dollares (um bem baratinho), e o papo não vai rolar porque a música é muito alta, a birita é tão colorida e cheia de frescura que vem dançando até a sua mesa, e a hora demora horas pra passar. Nem pense em paquerar, pode ser preso por atentado ao pudor. Se cair um cisco no seu olho, coloque a cabeça debaixo do guardanapo pra tirar, pois se alguém perceber que você está piscando pode chamar a polícia.
Ah, como eu sinto falta daquele fedorzinho característico dos butecos da Lapa, dos bebados, das putas, dos travestis, dos "amigos" da Lapa (aqueles que a gente não tem idéia do nome, mas sempre cumprimenta), dos mimicos malucos, a galera da cachacinha com mel, dos hippies e suas bujigangas, da sinuca, das brigas, do samba, forró, maracatu e até do funk indecente. Todos reunidos em volta dos butecos.
Saudade de sair de casa sem rumo e acabar a noite num buteco chique (agora a Lapa deu pra ter buteco chique), ouvindo uma mpb gostosa depois de curtir a noite inteira de Circo Voador, e ser praticamente expulsa pelos garçons que querem fechar o estabelecimento. Porque buteco chique fecha, buteco fedorento é como ônibus circular, não para nunca.
Aqui, saio de um cinema, e penso: e agora? Agora nada. Não tem buteco. Por isso falo e repito meu projeto pra Las Vegas: Buteco no deserto!
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